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CANGUILHEM, Georges. (Vários títulos)

O Conhecimento da Vida

O Normal e o Patológico (6. ed.) (dig.)

The Normal and the Pathological

Knowledge of Life

 

Arquivo completo torrent: https://thepiratebay.se/torrent/14039671

Artigos: Georges Canguilhem, historiador das ciências O SER DOENTE uma reflexão à luz de GEORGES CANGUILHEM Resenha O Normal e o patológico Safatle – O que é uma normatividade vital

 

Georges Canguilhem, filósofo e médico, morreu em 1995. Sua obra, original, esbarrou em uma época que não tinha idade para admitir essencialmente as suas propostas. Foi professor de Foucault e na década de 60 orientou este na tese “História da loucura na idade clássica”. Canguilhem tinha esperança em seu aluno e Foucault levou o pensamento de Canguilhem muito longe.

Agora no Brasil teremos a tradução das obras de Canguilhem e acho expressamente importante que os filósofos clínicos conheçam um livro de 1943 denominado O normal e o patológico.

O filósofo mostra a complexidade de se adotar a norma como critério de normal, evidencia os problemas de entendimento do que seria um organismo normal ou patológico. Ele não dissolve e afasta a diferenciação e os conceitos, como fazemos na Filosofia Clínica.

Ele afirma que “o homem dito são não é, portanto, são. Sua saúde é um equilíbrio conquistado à custa de rupturas incoativas. A ameaça da doença é um dos elementos constitutivos da saúde”. A saúde da pessoa foi embora? Pois a patologia que habita nela é sua condição natural agora, tão razoável quanto razoável uma outra coisa foi. A insistência da medicina em fazer com que o homem seja normal ataca um outro elemento importante, a patologia como normalidade.

Ainda que muito distante da Filosofia Clínica, mas muito próximo se considerarmos outras disposições oriundas da psiquiatria clássica de sua época, o filósofo abre caminho para que possamos dialogar com os trabalhos que temos em andamento.

Homens como Foucault e Canguilhem prefaciam a Filosofia Clínica, como quando este último escreve em seus apontamentos iniciais de sua tese: “O problema das estruturas e dos comportamentos patológicos no homem é imenso. O portador de um defeito físico congênito, um invertido sexual, um diabético, um esquizofrênico levantam inumeráveis problemas que remetem, em última análise, ao conjunto das pesquisas anatômicas, embriológicas, fisiológicas, psicológicas. Nossa opinião, no entanto, é que esse problema não deve ser dividido, e que as chances de esclarecê- lo são maiores se o consideramos em blocos do que se o dividirmos em questões de detalhes”.

Mas o prefácio prossegue e ganha novos conteúdos na Filosofia Clínica. Desde o banco escolar, os filósofos estudam nas academias o modo geral de desenvolvimento no qual a ordem é um dos dispositivos máximos. Pois bem, mas em meu trabalho em hospitais e clínicas, como filósofo, penso que algumas estruturações mentais caminham naturalmente de uma tentativa de ordem e métrica preconizada por nossos padrões de época para uma desordem, um caos muito além dos ditames que a medicina entende por psicose, esquizofrenia, e o fazem como parte de um desenvolvimento que lhes é próprio. A própria aproximação de elementos da afetividade, da razão, dos juízos, entre outros, levaria como consequência à desagregação, ao caos, como modo de sequência. Não se trata aqui de normalidade, de anomalia, de patologia, termos que Canguilhem utilizava. Estamos diante de outra coisa, inteiramente outra.

Mas se em minha tentativa filosófica clínica de entendimento eu parto de um princípio no qual existe uma lógica neste desagregar, neste esfacelamento da alma, ainda que eu não compreenda qual lógica é, ou lógicas, então já presumo a priori a existência de uma lógica. Não tenho como fazer isso. Atendi algumas pessoas que evidenciaram modos de ser em áreas existenciais que me fizeram compreender a possibilidade de não existir qualquer lógica em determinados aspectos da alma humana; a possibilidade.

Aqui encontro alguns paradoxos em minha atividade e um deles menciono. Meu trabalho encontra paralelo de parentesco em obras como a de Canguilhem, Laing, Franco Basaglia, Gilles Deleuze, Félix Guattari e outros que propuseram nova compreensão e atendimento aos que apresentam o que a medicina compreende por problemas mentais. Chega rapidamente o momento no qual nossos trabalhos, e os trabalhos de muitos outros, ganham a dimensão e o aceite dos dias atuais. Trabalhos em outras áreas nos apoiam cada vez mais, de Morin a Feldenkrais.

Mas os dias nos quais a nova proposta que trazemos se tornará tardia se aproximam velozes também. Com o estabelecimento dos múltiplos modelos mentais, de tecnologias de comunicação, em breve filósofos nos perguntarão o que teremos ainda a fazer ou dizer sobre as questões mentais, existenciais, que não serão mais conhecidas por normalidades ou patologia, mas por encaminhamentos peculiares de funcionamento e estruturação. E, então, correremos o risco de sermos os estudiosos conservadores da mente, retrógrados e dogmáticos, tais quais gente como Canguilhem denunciou um dia. Estaremos assim tão amarrados a esquemas sociais de cuidados aos outros, como empregados em universidades e hospitais, além de teorias encorpadas que endossarão nosso discurso, no qual talvez nem acreditaremos mais? Pois os filósofos clínicos de algumas décadas a partir de agora nos dirão que muitos fragmentados, despojados dos vínculos lógicos mentais, precisam da nossa ausência para poderem se desenvolver, precisam de nossa inexistência em relação a eles para poderem ser, e que nossa presença, muitas vezes, causa movimentos piores do que os movimentos que tentamos cuidar. Estamos caminhando para isso também, para um patamar além do que Canguilhem escreveu: “Quando um indivíduo começa a se sentir doente, a se dizer doente, a se comportar como doente, ele passou para um outro universo, ele tornou-se um outro homem. A relatividade do normal não deve, de nenhuma maneira, ser para o médico um estímulo a anular na confusão a distinção do normal e do patológico”.

Fonte: http://filosofiacienciaevida.uol.com.br/ESFI/Edicoes/67/artigo249969-1.asp

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Publicado às 26/03/2016 por em Artigos, Biologia, Filosofia, Livros e marcado , , .
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